Para quem desconhece, fica a transcrição de uma publicação da Agência Lusa em 2006-12-09 (09:05:01):
" No Douro selvagem construiu-se a cidade ideal
Há mais de 50 anos o jovem arquitecto Archer de Carvalho foi enviado ao Douro Internacional para projectar uma barragem que marca a história da arquitectura moderna.
Conhecia Trás-os-Montes da caça, mas jamais imaginou o que o esperava quando responsáveis da antiga Hidroeléctrica do Douro (Hidouro) lhe disseram: vai para lá uma semana, senta-te nas pedras e medita.
Quando chegou a Picote e desceu ao rio Douro apenas encontrou imponentes fragas e a natureza no seu estado mais selvagem.
Archer de Carvalho apercebeu-se também da grandiosidade do sítio, da variedade da vegetação e do colorido das escarpas que encaixam o rio dividido entre Portugal e Espanha e acabaram por inspirar o que classifica como a obra da sua vida.
Foi a partir desta imagem da natureza crua que Archer de Carvalho e mais dois colegas arquitectos, Rogério Ramos e Nunes de Almeida, projectaram a primeira barragem do rio Douro (Picote) e uma pequena cidade ideal na sua ilharga.
Integradas no Parque Natural do Douro Internacional, o IPPAR está prestes a classificar a barragem e a aldeia como conjunto de interesse público, um orgulho imenso, para Archer de Carvalho.
O reconhecimento chega quando o arquitecto está próximo dos 80 anos e será partilhado com apenas com Nunes de Almeida, já que Rogério Ramos morreu ainda novo.
O arquitecto fala de Picote com o entusiasmo da juventude, do momento em que chegou a uma aldeia onde faltava tudo, o que aliás acontecia em toda a região transmontana.
Archer de Carvalho ficou numa casa velha onde dispunha de um jarro de água gelada para se lavar.
Era, por isso, necessário criar condições onde não havia nada e assim começou a ser desenhada aquela que é hoje a aldeia do Barrocal do Douro.
Começaram por construir uma pousada provisória e uma estrada, já que os carros só chegavam até Picote e era necessário andar mais cinco ou seis quilómetros por monte até ao rio Douro.
Viver cinco anos ali em baixo, junto ao estaleiro da barragem era desagradável, pelo que decidiram explorar o morro que se erguia três quilómetros acima do rio.
O único condicionalismo que tiveram foi a segregação social que existia na época, o que levou à construção de um núcleo habitacional separado por classes.
No topo do morro foi construída a pousada para os quadros da empresa, mais abaixo um bairro de moradias para os engenheiros, seguido de um outro para os funcionários especializados e ainda um terceiro para o pessoal não qualificado, conhecido como bairro verde, a cor dos pré-fabricados.
Mas não faltava nada, não tinha inveja nenhuma das outras (casas), até aquecimento tinha em todas as divisões, revelou à Lusa José Pereira, antigo cozinheiro da pousada, que emigrou do Porto em 1958, mandou vir depois a mulher e os três filhos e permanece no Barrocal do Douro, mesmo depois de já reformado.
Condições como as que ali encontrou, há meio século, diz que é difícil obter mesmo hoje: uma casa com três quartos sem ter que pagar renda ou luz.
Os habitantes daquela cidade ideal foram dos primeiros, no Nordeste Transmontano, a ter água canalizada e tratada, através de uma estação de tratamento que ainda hoje serve parte do concelho de Miranda do Douro.
Há 50 anos tinham também cinema num cineteatro com salão de festas, piscina, e um centro comercial com padaria, peixaria, talho, mercearia, barbearia, e estação dos correios.
O requinte foi presença constante nesta cidade fundada do nada, que ficou completa com um refeitório, escola, capela e um posto médico, com especialidades ainda hoje na lista de carências da região, nomeadamente estomatologia ou raio X.
Conceição Domingues é quadro da EDP há 25 anos e começou a sua carreira de engenheira neste novo mundo, que cortou por completo com a ruralidade e o atraso que povoava aquela parte do interior do país.
Vivi aqui os melhores da minha vida, disse.
A engenheira, que conhece bem os empreendimentos hidroeléctricos do país, garante que as barragens Douro Internacional são as mais bonitas.
Nenhum pormenor foi esquecido mesmo na zona da produção, com os equipamentos encaixados na paisagem e nas entranhas da montanha, num diálogo raro entre a arquitectura e engenharia.
Na zona habitacional não há muros ou vedações.
Os jardins são o monte, salienta Archer de Carvalho.
Alguns registos asseguram que chegaram a viver ali 6500 pessoas no tempo áureo da construção da barragem, que ganhou o nome da velha aldeia de Picote.
Quando Conceição Domingues ali chegou, a escola de Barrocal do Douro tinha duas salas cheias de crianças.
Em 1991 foi a debandada com a centralização do telecomando das barragens do Douro, na Régua.
Os funcionários foram transferidos, as zonas habitacionais vendidas e alguns equipamentos entregues à câmara local, reduzindo o Barrocal a 60 pessoas.
A EDP ficou apenas com a pousada, piscina, campo de ténis e o bairro dos engenheiros, edifícios com marcas de abandono, mas de fazerem inveja a qualquer moradia ou empreendimento modernos.
Uma associação local de jovens, a FRAUGA, está a tentar convencer a EDP a abrir, pelo menos, a piscina à população.
A escola da aldeia é agora um café, onde um grupo de habitantes afirmou à Lusa que ainda vão afastar mais gente com isto da classificação.
Julieta Pereira até está contente com a distinção, mas considera as limitações da classificação exageradas. A razão maior do seu desagrado foi ter visto o projecto de uma moradia limitado a 120 metros quadrados, quando tinha três mil de terreno."
Certamente eu não descreveria melhor....
Com os meus agradecimentos a meu cunhado, Alberto Teixeira, deixo algumas fotos de época:
Inicio de trabalhos da Barragem:
- Vista geral Obra /(1955)
2- Um dos vários túneis
3- Ensecadeira - a montante e a jusante (1956)
4- Leito do Rio (1955)
5- Adobada Central (1956)
6- Contra-Fortes (1957)
7-Galeria de fuga (1957)
8- Central (1957)
9- Vista sobre a Barragem (1957)
10- Montagem de descarregadores (1957)
11- Cota 437 (1957)
12- Barragem a descarregar
Outras fotos da localidade:
1- Bairro definitivo
7- Pousada (também conhecida por "Estalgem")
8- Edificio Central (Barragem)
9- Estação de tratamento de águas (ETA)
10- Inauguração com pompa e circustância (com as mais altas personalidades da época)
Perguntarão muitos, "Barrocal do Douro", onde fica isso?
Bem, esta linda terra fica no "fim de Portugal", digo fim porque a seguir é Espanha....
No concelho de Miranda do Douro (Freguesia de Picote) podemos encontrar esta bela localidade. Nascida a partir da construção da Barragem de Picote, Barrocal do Douro foi criada de raiz, uma espécie de Brasília( à sua escala), onde tudo foi pensado ao pormenor (já não se fazem arquitectos/engenheiros assim....). Poderia estar aqui a falar tantas e tantas coisas sobre esta singela localidade (mas como sou suspeito, já que passei lá a minha infância), muitos poderiam não acreditar que isso poderia existir em Trás-os-Montes...mas acreditem que existe e o melhor seria dar lá um "pulinho", para a maioria um "pulão", pois reconheço que é lá bem "atrás do sol posto". Fica o convite.... mas, para adoçar a boca, não deixem de visitar este sitio: http://www.barrocaldodouro.com/ , pode ser que lhes aguce o apetite.
Fiquem bem....
F.C.
. Archer de Carvalho - "No ...